A lenda do suicídio de Lutero

Morte de Lutero

Sobre o suposto suicídio de Lutero 

Muitos apologistas católicos irresponsáveis, seja pelo fanatismo papista ou ignorância seletiva (veja aqui) andam a ressuscitar a caducada lenda de que Martinho Lutero cometeu suicídio. Eles citam uma carta apócrifa do século 17 atribuída a um suposto criado de Lutero chamado Ambrose Kudtfeld que supostamente teria testemunhado Lutero a se enforcar. No entanto tal alegação é desconhecida até mesmo entre os primeiros biógrafos de Lutero que eram inclusive católicos e jamais insinuaram tal coisa. 

Os primeiros católicos a divulgarem a teoria do suicídio há séculos foram devidamente desmascarados tão profundamente que fontes oficiais e eruditas do próprio catolicismo romano concluem que a história do suicídio de Lutero não passa de uma teoria insustentável. A análise dos antigos debates sobre o assunto junto à luz da pesquisa moderna nos esclarecem que a "história" de um Lutero suicida não passa de boato calunioso inventado por papistas fanáticos e polemistas.

De fato mais de 40 anos depois da morte de Lutero boatos lendários começaram a surgir e foram prontamente refutados por peritos, historiadores e escritores tanto protestantes quanto católicos que se indignaram com as histórias inventadas acerca da morte de Lutero.

O historiador alemão Heinrich Boehmer que é uma das maiores autoridades acerca da biografia de Lutero em sua obra Luther in the light of recent research - Lutero à luz da pesquisa moderna, edição de 1916 - na página 39, afirma que a lenda católica sobre o suicídio do Reformador foi uma falsidade grosseira que não apareceu na literatura polêmica católica até 1591, sendo admitida apenas por polemistas inferiores mesmo havendo refutações completas publicadas por estudiosos de sua própria fé.

Frantz Funck-Brentano, outro historiador e biografo muito citado de forma seletiva pelos católicos para caluniar Lutero, em sua obra Martim Lutero, diz:
"Os dois médicos, que o tinham tratado nos últimos momentos, não puderam chegar a um acordo sobre a causa de sua morte, opinando um por um ataque de apoplexia, outro por uma angina pulmonar."

Tal afirmação já seria o suficiente para derrubar a alegação de que Lutero teria se suicidado, ainda mais sendo testificada por um site de apologética católica como o Vertitatis em - Como Lutero morreu?. Mas ainda assim costumeiramente de maneira virulenta alguns ainda levantam tal suposição de suicídio, e contra isso vamos aos fatos já documentados e aceitos como incontestáveis.

Rumores e lendas sobre a morte de Lutero

Os historiadores sabem muito sobre as últimas horas de Lutero porque foram registradas em detalhes por seu confessor no leito de morte, Justus Jonas, que desejava dar um relato detalhado do falecimento de Lutero, a fim de conter os falsos rumores que ele sabia que seriam espalhados (e de fato foram mais tarde!) pelos oponentes de Lutero. 

Entre esses rumores a princípio espalhou-se a fábula de que Lutero havia sido levado pelo diabo devido a boatos de que ele teria morrido repentinamente ou durante o sono. No século dezesseis, acreditava-se que quem morresse em tais condições não teria tempo de confessar seus pecados e então o Diabo de repente viria sobre ela e arrastaria sua alma para o inferno. Da mesma maneira, os católicos romanos também divulgaram posteriormente a alegação de que Lutero morrera em estado de terror, acreditando que seria eternamente condenado. No entanto, Jonas registrou que as últimas horas de Lutero foram lúcidas e conscientes. Ele confessou seus pecados e afirmou sua fé em Cristo, junto com tudo o que havia ensinado.

Em 1568, outra lenda segundo a qual o Reformador se enforcou em uma das colunas de sua cama, começa a se espalhar e assim por 23 anos a nova fábula foi divulgada de boca em boca até que em 1591, o italiano Thomas Bozio teve a coragem de defendê-la por escrito em seu livro "De signis ecclesiae" [Os sinais da Igreja] (Roma, 1591). Quarenta e três anos após a morte de Lutero ele afirma que tinha ouvido a partir do testemunho de alguém que era um criado de Lutero quando garoto, que o reformador havia se enforcado com uma corda. O mesmo escritor afirma que vários dos reformadores tiveram mortes horríveis. Johannes Oekolampad foi estrangulado, Calvino morrera de uma terrível doença, enquanto um demônio horrível assustou todos aqueles que estavam presentes no leito de morte de Martin Bucer.

Essa foi a primeira representação literária da lenda sobre o suicídio de Lutero que suscitou uma vigorosa controvérsia sobre a morte de Lutero até cerca de 1688. Bozio citou como prova o pretenso testemunho de um suposto criado de Lutero mencionado por um anônimo que ouviu de outro anônimo até relatar isso a um outro cidadão anônimo de Friburgo no Breisgau de quem ele tomou o depoimento. Tal depoimento o franciscano Sedulius publicou literalmente em 1606. [ veja em: Heinrich Boehmer, Luther and the Reformation in the Light of Modern Research ( Marburg University - Translated by Carl F. Huth, Jr. - University of Chicago - 1916 - The Christian Herald New York ) pp. 38-39 ].

A lenda do suicídio, portanto, como podemos notar, se iniciou falaciosamente sem qualquer credibilidade com três fiadores anônimos que mencionam o que um suposto criado teria visto há mais de 40 anos e que apesar dessa controvérsia, mais tarde, polemistas como Majunke não acharam necessário abandonar a história. 

O propagador da lenda do suicídio

Cerca de 300 anos após a morte de Lutero a propagação da lenda alimentada por Bozio se deu por Paul Majunke, um padre católico romano de Hochkirch, próximo a Glogau no leste da Prússia que durante o curso de 1890 publicou um artigo sobre "O Fim da vida de Lutero" (Mainz, Kupferberg, 1890). 

Majunke além de padre era editor do jornal Germania e outros jornais católicos romanos, e um membro da Câmara dos Deputados da Prússia, e do Reichstag alemão. No seu artigo referido ele tentou provar por "investigação histórica" ​​que Lutero, como normalmente se acreditava, não morreu de morte natural mas, cometeu suicídio e que o fato foi escondido por aqueles que conheciam a verdade do fato. O panfleto de Majunke causou muita alegria em círculos ultramontanos, tendo muitas tiragens de panfletos e artigos. No entanto, Majunke foi refutado tão completamente que a lenda tem raramente se aventurado a mostrar-se na literatura mais uma vez.

A lenda refutada

Na mesma época em que Majunke ressurgiu com o boato, ele foi prontamente refutado por protestantes como: E. Bliimel em Luthers Lebensende, Barm de 1890.G. Kawerau, em Lebensende de Lutero, Barm de 1890.T. Kolde, em Luthers Selbstmord, Leipz de 1890.G. Rietschel, em Luthers sel. Heimgang, Halle, 1890FW Schnbart, em Wie starb M. Luther, Dess., 1892

Após uma investigação exaustiva de todas as provas, um estudioso católico romano, W. Panlus, em sua obra Luthers Lebensende nnd der Eislebener Apotheker, Mainz, 1896 (see Th. Litz., 1897, No. 11) e, especialmente, em seu trabalho Luthers Lebensende, Freib. i. B., 1897, chegou a mesma conclusão que os adversários protestantes de Majunke [que o suicídio de Lutero não passa uma teoria insustentável] e dá um golpe final para a lenda.

Os professores Kostlin de Halle, Eawerau de Kiel, e Kolde de Erlangen, assim como os já citados anteriormente demoliram com sucesso a "casa construída sobre a areia," e a história "engenhosamente arquitetada" foi exposta. Majunke publicou uma resposta ao Prof. Kolde e seus outros críticos, intitulada Die Historische Kritik über Luthert Leben Ende (Mainz, 1890). A réplica do Professor Erlangen -  Noch einmal Luthers Selbstmord - foi esmagadora.

A morte de Lutero teve lugar na manhã de 18 de fevereiro de 1546. O evento foi inesperado, e sua morte repentina foi muito comentada não só pelos amigos, mas pelos inimigos da Reforma. Uma descrição professada dos incidentes relacionados com o exame do corpo de Lutero foi dada por civis de Mansfeld de maneira rude e registrada pelo primeiro biógrafo católico romano de Lutero, Cochlaeus em sua obra De Actit et Seriptit Lutheri, publicada em 1565 e 1567 mas que não se encontra na primeira edição, publicada em 1549. Em nenhuma das edições se menciona a descrição de um correspondente anônimo sugerindo que Lutero tendo cometido suicídio.

O Professor Kolde prova conclusivamente que nenhum historiador católico romano do século XVI se aventurou em expressar qualquer dúvida a respeito da veracidade da história elaborada pelo Dr. Justus Jonas e os amigos presentes na ocasião. Apenas os "historiadores" católicos romanos desse século que estão cheios de tais expressões de "caridade" nada imparciais ou isentas de fanatismo como a de que "Lutero entregou sua alma ao diabo", ou que ele "desceu a Satanás." Escritores romanistas do próximo século retratam Lutero como tendo morrido em torturas, ou que, como Arius, derramou suas entranhas. E é nisso que se resume os "estudos especializados" que os católicos apontam por conveniência. Recheados de polemismo panfleteiro e sensacionalismo fanático mas nada de história.

Majunke para querer reforçar seu panfleto baseado em boataria chegou a afirmar que a única descrição do fim da vida de Lutero que os biógrafos dele usaram é a que foi elaborada pelo Dr. Justus Jonas. Com isso ele achava estar diminuindo a credibilidade dos registros justinianos sobre a morte de Lutero. Entretanto, a alegação do caluniador polemista, é falsa. 

Justus Jonas elaborou uma carta ao magistrado às quatro horas da manhã, nem duas horas após Lutero ter expirado. Essa carta afirma que estavam presentes na sua morte um Perito Judicial, Coelins, o próprio Jonas, dois filhos mais novos de Lutero, Paul e Martin, seu servo Ambrósio, seu senhorio Hans Albrecht, o tabelião, o conde Albrecht de Mansfeld e sua esposa, o Conde Schwarz von burg, e mais dois médicos.

Duas cartas são sobreviventes, escritas também ao mesmo tempo para o magistrado pelo próprio conde Albrecht a ele mesmo, e pelo Príncipe Wolfgang de Anhalt. Outra carta, escrita no mesmo dia, por Aurifaber, aumenta o número de testemunhas oculares para dezesseis, entre os quais estavam Aurifaber, ele mesmo e o Conde Hans George de Mansfeld, desde o último dos quais também há uma carta escrita no mesmo dia para o Duque Mauricio da Saxônia. Além disso, há outra carta escrita no mesmo dia por J. Friedrich, Conselheiro de Eisleben, a seu tio, o bem conhecido J. Agrícola. Friedrich não era uma testemunha ocular, mas ele dá a opinião médica dos médicos, que atribuiu a morte a um ataque de paralisia, causada pelo fechamento de uma ferida na perna a partir do qual o reformador sofreu durante anos.

O perito judicial, Coelius, entregou em 20 de fevereiro o primeiro discurso no túmulo, no qual ele menciona que o cadáver do Reformador tinha sido visto por um grande número de pessoas, que se aglomeravam para ver os seus restos mortais quando o triste acontecimento foi anunciado. Algum tempo depois, a história ou relatório da morte cristã de Lutero foi elaborado a pedido do magistrado por J. Jonas e M. Coelius. Os fatos referidos no Relatório são confirmados por elementos de prova já referidos, todos os quais são totalmente suprimidos e descaradamente omitidos por Majunke.

Conclusão

A lenda do suicídio de Lutero que foi revivida pelo padre e jornalista Paulus Majunke é mencionada na Enciclopédia Católica original, publicada entre 1907 e 1912. Referindo-se a ele e sua obra, a Catholic Encyclopedia afirma que: ( veja aqui ) "ele tentou estabelecer a teoria insustentável do suicídio de Lutero". A referência como "teoria insustentável" também é confirmada no site Catholic Answers que reproduz o texto original mencionado na Catholic Encyclopedia ( Encyclopedia - Paul Majunke ). Faz-se necessário tais exposições para que nenhum papista cometa a falácia de querer invalidar as próprias fontes católicas que há muito tempo já descartam a hipótese do suicídio de Lutero.

Em 1980 Philip Schaff deu um resumo do caso em seu artigo "Did Luther Commit Suicide?" na "The Magazine of Christian Literature, Volume 3". O texto pode ser visualizado abaixo em sua versão digitalizada. Ou na versão que traduzi no artigo Philip Schaff em resposta ao suicídio de Lutero.

 
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