A origem da obrigatoriedade do dízimo

Moedas

A obrigatoriedade do dízimo para manutenção de igrejas e sustento de seus líderes não tem origem no protestantismo.


Católicos tem apontado de forma hipócrita e generalizada casos de igrejas e lideres abusivos em algumas fileiras protestantes com sua deformada teologia da prosperidade. Só que os tais deveriam ter em mente que estas repulsivas práticas abusivas em torno do dízimo e que afetam desfavoravelmente a credibilidade de uma igreja tiveram início e perduraram por séculos entre o clero medieval antes e depois da própria Reforma Protestante.

Na Idade Média a própria Igreja funcionava como uma empresa que, no auge de seu poder político e econômico, operava como uma corporação poderosa e sofisticada. A Igreja tratou de um "produto" que muitos consumidores sentiram que tinham que ter: a salvação de suas almas imortais. O Papa serviu como seu CEO, o Colégio dos Cardeais como seu conselho de administração, e os bispados e mosteiros como suas franquias. Pense em algo como um Edir Macêdo medieval e você não está longe de ter ideia de como eram os papas medievais. Claro que alguns poucos papas tentaram aliviar os abusos, mas só o fizeram quando o braço secular da Igreja, os monarcas, passaram a abocanhar parte dos tais dízimos.

O fato é que um dos fatores que definitivamente pôs freio nessa atividade econômica vantajosa em que Roma enchia os cofres, foi a própria Reforma Protestante que por exemplo, oferecia serviços religiosos com preços mais baixos, substituindo o oneroso conjunto de dízimos da Igreja como, impostos e indulgências, por um simples 10% de "dízimo bíblico" como afirma Robert b. Ekelund em Sacred Trust: The Medieval Church as an Economic Firm, e ainda pregavam regularmente uma vida de santidade e superioridade do clero contra a corrupção da Igreja e forneciam serviços públicos gratuitos, estabelecendo novas escolas para educar os jovens . Algo muito diferente da Igreja Romana que cobrava alto, oferecia serviços caros, educação sim, mas, para os ricos e nobres, ministrava aqui e ali suas funções espirituais, mas ainda assim mantinha a luxuosa vida de um clero imoral e corrupto. 

E foi só com o avanço da Reforma Protestante e vendo seu monopólio religioso ruir, que então Roma passa a oferecer uma Igreja nova e melhorada sob a forma de Reformas Tridentinas (Ekelund et al., 2004). Uma Igreja mais santa através de canonizações aumentadas e beatificações, atendendo à popularidade dos santos (Barro e McCleary, 2016), e estabelecendo suas próprias novas escolas, encabeçadas pelos jesuítas e buscando outras formas de se sustentar que não o abuso indevido do dízimo e oferta de seus fiéis já que os rivais protestantes ofereciam mais, por menos e ainda faziam melhor sem obrigar seus fiéis a dar nada além do que sentiam graciosamente a oferecer.

Quanto ao "dízimo", a primeira vez que ele se tornou obrigatório na cristandade para o sustento da igreja e seus líderes, o foi no século VI, e para sustento do clero romano, logo, a objeção de que os "protestantes" teriam inventado o dízimo para sustento de suas igrejas e líderes eclesiásticos não se corrobora. Isto, segundo a própria Enciclopédia Católica, que assim se refere ao tema.:
No início [a manutenção da igreja] era fornecida pelas ofertas espontâneas dos fiéis. No decorrer do tempo, no entanto, como a Igreja se expandiu e se levantou várias instituições, tornou-se necessário fazer leis que assegurassem o bom e permanente apoio do clero. O pagamento de dízimos foi adotado da Antiga Lei, e os primeiros escritores falam nisso como uma ordem divina e um dever de consciência. A mais antiga legislação positiva sobre o assunto parece estar contida na carta dos bispos reunidos em Tours em 567 e nos cânones do Concílio de Macon em 585. No decorrer do tempo, encontramos o pagamento de dízimos tornado obrigatória por decretos eclesiásticos em todos os países da cristandade. A Igreja olhou para esse pagamento como uma "lei divina, uma vez que os dízimos foram instituídos não pelo homem, mas pelo próprio Senhor" (C. 14, X de decim. Ill, 30). No que diz respeito ao poder civil, os imperadores romanos cristãos concederam o direito para as igrejas reterem uma parte da produção de determinadas terras, mas a primeira instância da aplicação do pagamento de dízimos eclesiásticos de direito civil pode ser encontrada nas capitulares de Carlos Magno, no final do século VIII.
[Fonte: William H. W. Fanning, Enciclopédia Católica - pag. 741 - 742. Volume XIV - Imprimatur do Cardeal John Farley, Arcebispo de Nova York. Ano 1912]
Após a Reforma Protestante, o Concílio de Trento em sua Sessão 25 de 03 e 04 de dezembro de 1563 no capítulo 12 estabelece que:
Os dízimos devem ser pagos inteiramente, e deverão ser excomungados aqueles que o furtarem ou o impedirem de ser pagos. As ajudas piedosas que devem ser proporcionadas aos curas de igrejas muito pobres.
Não devem ser toleradas as pessoas que valendo-se de diversos artifícios, pretendam quitar o pagamento dos dízimos em favor das igrejas, nem os que temerariamente se apoderam e aproveitam dos dízimos pagos por outras pessoas, pois a paga dos dízimos é devida a deus, e usurpam os bens alheios todos que não quiserem paga-los ou impedem que outros paguem.Ordena então, o Sagrado Concílio, a todas as pessoas, de qualquer grau e condição, aos quais toca o pagamento dos dízimos, que sucessivamente paguem inteiramente o que de direito devam à catedral ou a quaisquer outras igrejas ou pessoas a quem legitimamente pertençam.
As pessoas que fizerem a quitação dos pagamento ou impedem esse pagamento, sejam excomungadas e não alcancem absolvição deste delito, se não fizerem a restituição completa. Exorta o Santo concílio, a todos os fiéis, pela caridade cristã e pela devida obrigação a seus pastores, tenham por bem concorrer, com liberalidade, os bens que Deus lhes concedeu, para a gloria do mesmo Deus, e para manter a dignidade dos pastores que velam em seu benefício, aos Bispos e párocos que governam igrejas muito pobres.


 

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