Olavo de Carvalho e seus palpites sobre Lutero e a Venda de Indulgências

Olavo de Carvalho


Olavo de Carvalho em seu vídeo, 'sobre o Protestantismo e Catolicismo', que pode ser visto neste link (aqui), faz diversas alegações que futuramente terão respostas detalhadas aqui no blog, ponto a ponto, da maneira mais racional possível para que qualquer leigo venha a entender.  No entanto, vou pular a parte sobre 'O Sangue derramado na cruz foi o de Maria' e ir logo ao que ele chama de "mito, farsa", ou invenção protestante, orquestrada para caluniar a Igreja Romana.

Logo nos primeiros minutos de seu vídeo descontraído elaborado para leigos em história que querem apenas massagear o ego inflado das massas romanistas, ele afirma: 

"Dos mitos anti-católicos,(...) está a questão das indulgências.(...) Ora, esse pessoal não tem a menor ideia do que é Indulgência. Indulgência era a suspensão não das penalidades eternas, mas das penalidades temporais, em troca de uma multa em dinheiro. O Sujeito ao invés de ser preso, pagava uma multa. Isso é indulgência."

A partir disto, o Olavo raciocina que, o que era combatido como venda de indulgências, na verdade era uma versão fantasiosa do que realmente era praticado pela igreja. ENTÃO, a farsa continua até hoje.

Então, duas coisas devem ser ditas ao Olavo e seus seguidores apaixonados. A primeira é que ele não tem real dimensão dos motivos por trás das tais multas, e em segundo lugar, ele não faz ideia do alcance negativo que a VENDA DE INDULGÊNCIAS teve, e isso, nada tem a ver com mitos inventados para caluniar a Igreja Romana.

O auge dessa prática se deu durante o pontificado de João de Lourenço de Medici, o Leão X (1513-1521), que lançou uma aberta política de venda de indulgências, onde verdadeiros mascates percorreram a Europa vendendo "cartas de indulgência", quase bônus-Paraíso, que podiam ser comprados sem maiores formalidades, mas desconcertando muitos crentes genuínos. Leão X definitivamente esvaziou os cofres do Vaticano e na urgência de levantar dinheiro, teve a ideia de estimular a venda de indulgências. Aquilo logo se transformou em um comércio ultrajante complementado pela venda de relíquias de procedência quase sempre duvidosa.  Nas palavras de Lucas Banzolli, historiador e apologista ainda temos um vislumbre maior da condição decadente da igreja romana por conta não apenas da venda de indulgências, mas também de situações como:

A "salvação" podia ser comprada nas bancas dos representantes de Deus! Os milagres podiam ser alcançados pela nem sempre módica quantia que pagava um pedaço da cruz de Jesus ou um dedo de João Batista. A degradação do cristianismo, com o papa validando práticas muito próximas da superstição pagã, provocou revolta em meio ao clero europeu e ali surgiu a figura de Martinho Lutero, o homem que deflagrou a Reforma Protestante dividindo os fiéis cristãos do continente em duas facções rivais.
Quando Lutero fixou suas 95 teses na porta da Igreja de Wittenberg, a papa emitiu uma bula, Exsurge Domini, em junho 1520, censurando o texto de Lutero e ameaçando-o com a excomunhão. Ameaçou e fez. O precursor da reforma protestante foi excomungado em 1521 e o Cristianismo europeu perdeu sua unidade.

De fato, não havia crime, nem o mais cruel, que não pudesse ser perdoado mediante pagamento. Além disso, muitos antes de Lutero foram mortos por pregarem contra estas indulgências e a venda delas. O Olavo jamais ouviu falar nos valdenses? Ou também são mito?

Ora, naqueles anos, o dominicano Tetzel percorreu a Alemanha vendendo cartas de indulgência. Mais tarde, Lutero descreveria sua obra da seguinte forma:

"Seus poderes e graça foram ampliados de tal forma pelo papa que, se alguém violasse ou engravidasse a Virgem Maria, ele teria perdoado aquele pecado assim que uma quantia de dinheiro suficiente fosse colocada em sua bolsa... Ele redimiu mais almas com as indulgências do que São Pedro com seus sermões; quando era colocado em sua bolsa um dinheiro pelo Purgatório... a alma se elevava imediatamente para o Paraíso; não havia necessidade de comprovar dor ou arrependimento por um pecado se era possível comprar indulgências ou cartas de indulgência. Tetzel vendia até o direito de poder pecar no futuro... qualquer coisa era garantida em troca de dinheiro.”
(David Christie-Murray, I percorsi delle eresie, Milão, Rusconi, 1998, p. 180.)

Portanto, a venda de indulgências era apenas a ponta do iceberg de um fenômeno geral de corrupção na Igreja da época. Os altos prelados acumulavam mais encargos e as relativas prebendas. Os bispos não residiam nas sedes a eles designadas. Por exemplo, um nobre de Ferrara podia ser nomeado arcebispo na Hungria e nunca sair de sua casa, limitando-se a receber o dízimo dos fiéis de cujas almas devia cuidar.

O título de cardeal (que era o "príncipe", também em sentido terreno) muitas vezes não era resultado de um longo percurso espiritual, mas da venda ou concessão do papa a parentes e amigos. Quem podia se permitir o comprava para o filho caçula ou ilegítimo, por vezes adolescente, como uma renda vitalícia. O próprio Leão X (1513-1521) se tornara cardeal aos 13 anos.

Os pontífices eram, em todos os aspectos, soberanos renascentistas. Como os reis, eliminavam os adversários e se cercavam de homens de confiança. Como os reis, usavam a intriga e o homicídio político, como o papa Alexandre VI Bórgia (1492-1503), por exemplo, e seu filho César. Como os reis, declaravam guerra contra seus inimigos e conduziam as tropas na batalha; o papa Júlio II (1503-1513) foi retratado em armadura. Como os reis, tinham concubinas e filhos bastardos. E, como os reis, amavam as artes e protegiam os artistas. Mas os cuidados com as almas nada tinham a ver com tudo isso.

Logo, não se pode dizer que a "venda de indulgências" praticada pela Igreja Romana, era uma coisa correta, ainda que fosse com relação a explorar e arrancar dinheiro, aplicando multas em penalidades temporais. O único mito que vemos aí, é o revisionismo ignorante do Olavo de Carvalho que tenta absolver a igreja romana de seus erros passados.

Como se não bastasse, o Olavo ainda passa a atribuir a Lutero o que ele chama de mentira e mito protestante contra a Igreja e sua "correta aplicação de multa sobre penalidades temporais". 

Sobre a Taxa Camarae


A Taxa Camarae é uma suposta lista tarifária datada de 1517 e atribuída ao Papa Leão X, elaborada com o propósito de vender absolvições sacramentais por pecados graves já cometidos ou a serem cometidos no futuro. O documento mencionado no livro anticlerical do espanhol Pepe Rodríguez, intitulado Mentiras Fundamentales de la Iglesia Católica encontra-se sobre contestação de autenticidade e academicamente figura como duvidoso. No entanto tal status de um documento ser duvidoso não torna a objeção inválida. Portanto permanece de pé todas as alegações históricas contra a Igreja Romana no que se refere a seus abusos quanto a venda de indulgências e também quanto as FALSIFICAÇÕES que ela mesma promoveu com documentos como a Doação de Constantino.

Portanto, se como disse o próprio Olavo de Carvalho, "Indulgência era [apenas] a suspensão não das penalidades eternas, mas das penalidades temporais, em troca de uma multa em dinheiro. O Sujeito ao invés de ser preso, pagava uma multa. Isso é indulgência', então, a Taxa Camarae representa muito bem um documento demonstrando exatamente esse contexto. Ainda assim, não se pode dizer que foi uma prática correta cobrar multas temporais de pecadores para que esses fossem absolvidos de seus erros, sem a necessidade de arrependimento e conversão a fé genuína em Cristo. Isso já nos revela a que ponto chegou a Igreja Romana, ao abrigar no seu seio, toda sorte de imundice e sujeitos sem caráter cristão. Não é a toa que os alunos do senhor Olavo de Carvalho assim como a maioria dos católicos, comprovam pelos frutos que demonstram, que podem ser chamados de qualquer coisa, menos de cristãos.

Lutero, um mentiroso contumaz


O Olavo de Carvalho afirma que Lutero sendo um Lutero era uma mentiroso contumaz, adulterou, ou suprimiu textos. Talvez ele se refira a Romanos, onde ele usa o termo 'somente pela fé', onde deveria ser "pela fé".

Bom, faz de conta que Jerônimo não fez o mesmo em Lucas 1:28 onde traduz KECHARITOMENE como 'cheia de graça', onde deveria ser corretamente ALTAMENTE AGRACIADA ou MUITO FAVORECIDA, já que CHEIA DE GRAÇA , em grego se tem como PLERES CHARITO (veja mais aqui).

Que Lutero e Jerônimo fizeram? Ambos traduziram o texto, segundo a interpretação que mais poderia ser aplicada ao contexto. E ambos usam palavas que não estão vinculadas no original empregado no texto. Ora, Lutero traduziu exatamente como o texto lhe era entendido em seu real contexto. Muitos outros antes dele fizeram o mesmo, sobre o mesmo sentido do texto.

Mas Olavo continua e nos dá uma pista de toda a sua ignorância sobre Lutero. Heinrich Denifle, eis a sua fonte. Só que a biografia do Heinrich Denifle sobre Lutero, se baseia totalmente em escritos de Cochlaeus, um outro católico que foi contemporâneo de Lutero e que envenenou a história com mitos anti-Lutero. Mitos anti-Lutero que já foram desmentidos por eruditos católicos que fizeram o trabalho de reexaminar tudo acerca de Lutero para desfazer diversos equívocos cometidos antes por outros escritores católicos, e que foram baseados em sentimentalismos e mentiras de católicos que agiam mais com a emoção do que com a razão ao realizar pesquisas sobre Lutero. 

Pra ser realmente honesto, Olavo deveria ler obras aceitas por eruditos católicos HONESTOS e realizadas por católicos como Joseph Lorts, Hartmann Grisar e Thomas O'Meara. E se quiser uma ajuda, aqui está uma lista completa das principais obras acerca de Lutero (veja aqui). Neste link há diversas das principais obras primárias acerca de Lutero, e inclusive fontes secundárias como biografias elaboradas por católicos, inclusive o Denifle, mas é bom dar uma olhada em todas ao invés de somente aquilo que o convém. 

Querer julgar Lutero se baseando simples e unicamente por trabalhos como o de Denifle, é canalhice, seria o mesmo que julgar o catolicismo segundo escritos nazistas após a quebra da concordata, ou o cristianismo em escritos gnósticos do segundo século.

Porém o Olavo continua, ele ainda afirma em seu vídeo que:

"Lutero não era uma pessoa de grande inteligência (...) não tinha condição intelectual de examinar..."

Ora, nessa o Olavo se deu mal, foi infeliz em seu comentário. 

Segundo o historiador católico Fernando Jorge, em seu livro " Lutero e a Igreja do Pecado", Lutero era músico, formado em Direito, Latim, Filosofia, Astronomia e Teologia e lia assiduamente as obras filosóficas de Epicuro, Sócrates, Platão, Aristóteles, e Santo Agostinho a quem considerava depois da Bíblia, o melhor doutor que já existiu, mais ainda que o eloquente São João Crisóstomo ou o versado São Jerônimo.

Além destes, Fernando Jorge afirma que Lutero devorou os escritos de Gerson, Duns Scotus, Tauler, Pedro D'Ailly, Nicolau de Lira, São Bernardo, e São Tomás de Aquino além de ser fortemente atraído pelos escritos de Gabriel Biel "o último dos escolásticos" e Guilherme Occam "o doctor invincibilis", sendo igualmente CAPAZ a estes últimos.

Honestamente é difícil imaginar que alguém como Lutero, com este calibre, conhecedor do que há de melhor na patrística, escolástica, filosofia e teologia, simplesmente não passava de um mero palpiteiro sem inteligência e sem condição intelectual de analisar alguma coisa. Ora, Olavo não tem metade do pedigree e cabedal de Lutero e já andou dizendo muita coisa contra o próprio catolicismo, será mesmo que o "mestre" Olavo estava bem ao dizer isto sobre Lutero?

Bom, eu quero acreditar que o Olavo é um bom professor, mas de FILOSOFIA e sobre POLÍTICA. Quanto a história e teologia, ele é tão bom quanto esse mala (aqui) o Fernando Nascimento, já refutado por si mesmo.

Ainda vou trazer outros artigos respondendo a outras alegações do Olavo, essa foi uma resposta dos primeiros 5 minutos de um vídeo com mais de uma hora de duração. E como se trata em grande parte de ataques a Lutero e a Reforma, peço ao senhor Olavo que se atualize um pouco, não lhe custa nada, e só lhe acrescenta. Sugiro que não cometa o mesmo erro do qual nos acusa e deixe de revisionismos favoritistas pois isto não lhe cai bem. 

Abaixo há uma lista de diversas coisas que aleivosamente muitos católicos e até o Olavo afirmam sobre Lutero. Alegações que já foram refutadas aqui mesmo. Divirtam-se e vejam o poço sujo da apologética católica contra Lutero, RUIR!




Calúnia contra Lutero

Refutação

“Lutero era um assassino que se tornou monge para fugir da condenação de homicídio”

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“Lutero chamou Cristo de adúltero”

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“Lutero disse que Deus é estúpido”

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“Lutero disse que Deus age como um louco”

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“Lutero era um gnóstico pagão que dizia que Cristo era Satanás"

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“Melanchthon disse que Lutero era maniqueu”

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“Lutero cometeu suicídio”

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“Lutero era bêbado”

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“Lutero causou o nazismo”

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“Lutero era maçom e ocultista”

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“Lutero criou uma inquisição protestante”

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“Lutero retirou sete livros da Bíblia”

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“Lutero disse que o Decálogo deve sumir dos nossos olhos"

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“Lutero era um revolucionário”

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“Lutero causou a divisão”

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“Lutero mandou matar camponeses”

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“Lutero era um devoto mariano”

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“Lutero disse para pecar fortemente”

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“Lutero chamou a epístola de Tiago de palha”

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“Lutero não admitia que sua doutrina fosse julgada por ninguém, nem pelos anjos”

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“Lutero perdeu um debate para Johannes Eck”

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“Lutero disse que o protestantismo tinha tantas seitas quanto cabeças”

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“Lutero dizia que podia mentir se fosse por uma boa causa”

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“Lutero mandou jogar o livro de Ester no Elba”

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São tantas as refutações que já expusemos contra diversas falácias católicas, que não há mais necessidade de dar atenção a elas, mas o Olavo merece uma atenção especial devido a sua tropa de seguidores alienados que confundem bunda com cueca num terrível apelo a autoridade. 

Aqui no Resistência Apologética, farei questão de contraditar, ou reconhecer o que for preciso em cada uma das alegações contra o protestantismo feitas pelo senhor Olavo de Carvalho. Mas usarei algo que aprendi com ele mesmo e que infelizmente seu favoritismo religioso desta vez o impediu de usar. Serei criteriosamente detalhista em cada ponto e farei uma analise cirúrgica de cada alegação sua. 

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