Os Cátaros e a Cruzada Albigense

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O que o revisionismo católico não te contou sobre os Cátaros e a Cruzada Albigense.


Já conhecemos a cantinela católica de revisionismo tupiniquim sobre os cátaros. Que eles eram gnósticos, criam em reencarnação, hereges suicidas, traziam desordem e caos e coisas do tipo, sendo uma terrível ameaça contra uma cristandade ortodoxa e unida, e portanto, deveriam ser exterminados. Mas a verdade é que essa não era a preocupação da Igreja Romana medieval a ponto de promover uma verdadeira cruzada contra os cátaros posto que nem mesmo o pior dos cátaros era tão imoral, leviano, depravado, avarento e herético como muitos da elite clerical romana. Se deveria haver uma cruzada de limpeza em nome da ortodoxia e da fé cristã, com certeza a marcha deveria se dirigir contra Roma. Mas evidentemente que os séculos se passaram e a questão do massacre albigense levanta objeções que obviamente deveria deixar qualquer católico constrangido, então, para lidar com tal constrangimento os apologistas católicos decidem apelar ao revisionismo, torcendo especulações e desculpas esfarrapadas e então seus leitores são largados a ignorância seletiva  e por serem em grande maioria sujeitos acéfalos, acabam mordendo, digerindo e repassando a isca podre.

Aliás, a tal história sobre os cátaros serem suicidas e violentos não passa de especulação sem qualquer comprovação. Na prática, como nos informa Michael Baigent e Richard Leigh em A Inquisição, os cátaros apesar de adotar um gnosticismo que considerava má a matéria, todavia eram proibidos de buscar no suicídio um atalho para se livrar da matéria e encaravam a vida terrena como campo de prova, uma arena em que podiam lançar-se contra o desafio do mal e, se bem sucedidos, vencê-lo. Como em todo sistema religioso, obviamente existiam cátaros bons e maus, mas Baigent ainda aponta que : "no todo, e independente de suas crenças, os cátaros eram em geral vistos pelos contemporâneos como conspicuamente virtuosos".

O que de fato os tornou alvo da perseguição romana não foi uma especulativa ameaça a ordem social e sim o fato de suas qualidades valeram-lhes considerável respeito e, em comparação, tornaram menos atraentes os sacerdotes romanos a ponto de que cada vez mais, os cátaros eram uma ameaça não a ordem social, mas a própria corrupção moral e teológica do clero romano. E de acordo com Paul Johnson, um renomado historiador católico de tradição jesuíta, nem todos os "cátaros" eram realmente "cátaros". 

Em "Uma História do Cristianismo" ele afirma que os que abraçavam a heresia dos cátaros em todos os seus aspectos não passavam de 1000 a 1500 pessoas em todo o Languedoc por volta do século 13 e a maioria dos que foram exterminados sob a acusação de serem cátaros, na verdade eram apenas "crentes" que viviam normalmente, eram organizados, ordenados, praticavam caridade, tinham vidas admiráveis e se davam bem com as autoridades locais. 

Eles se tornaram um alvo a ser aniquilados pois ao menos na região onde viviam, se tornaram rivais do clero romano e de fato pretendiam substituir o clero corrupto, por uma elite "aperfeiçoada" de cristãos. Onde eram numerosos, como no sul da França, organizavam igrejas e bispados e constituíam uma Igreja alternativa. 

Foi com a rápida desintegração do catolicismo no sul da França, que a Igreja Romana, em seu medo de que a "ousadia" dos cátaros influenciasse outras regiões, promoveu uma cruzada contra todos da região, quer fossem mesmo cátaros ou não. E não foi difícil conseguir adeptos para a causa contra os cátaros:
Prometendo benefícios tangíveis e criando diferenças de linguagem e cultura, fortalecendo o racismo e o esporão da ganância pela terra. As cruzadas albigenses, organizadas a partir de 1208, precursoras de muitas outras cruzadas papais "internas", se tornaram uma oportunidade para se elevar na escala social. Os cruzados receberam uma indulgência plenária por um serviço de quarenta dias, mais uma moratória sobre suas dívidas e quaisquer juros a pagar; Se tivessem terras, poderiam tributar seus vassalos e seus clérigos e Igreja reservou-se ao direito de redistribuir entre os cruzados mais fiéis, as terras confiscadas dos hereges derrotados.
Assim, a cruzada atraiu os elementos mais desonestos do norte da França, e o resultado foi um horror. Em 1209, Arnold Aimery relatou ao Papa que a captura de Beziers tinha sido "milagrosa"; e que os cruzados haviam matado 15.000 (...).
Os prisioneiros foram mutilados, cegados, arrastados nos cascos dos cavalos e usados como prática de tiro ao alvo. Tais ultrajes provocaram uma resistência desesperadora e prolongaram o conflito. Foi uma marco da história cristã. Claro que despertou muitas críticas mesmo na época. Pedro Cantor perguntou: "Como presume a igreja examinar por este juízo alheio os corações dos homens? Ou como é que os cátaros não recebem uma pausa legítima para a discussão, mas são queimados imediatamente? [ Paul Johnson, History of Christianity, © 1976 Athenium, pgs. 251-253.].

Honestas mães de família, relata Johnson, que se recusavam a consentir na concupiscência dos padres eram incluídas no livro da morte e acusadas de serem cátaras ... enquanto que alguns que fossem ricos, podiam se livrar do extermínio se pagassem bem. Johnson ainda menciona um pobre homem que foi queimado vivo só porque era pobre e pálido, mesmo tendo confessado a fé em Cristo fielmente em todos os pontos. Na verdade ele morreu porque os bispos que o julgaram, não gostaram dele ter dito que meter ferro quente nas pessoas, não era coisa de cristão. 

Paul Johnson figura como um dos poucos honestos historiadores que não cederam ao revisionismo descarado a que os católicos hoje em dia amam recorrer na tentativa de justificar os insanos abusos cometidos pela Igreja Romana seja em nome da fé ou apenas para satisfazer a soberba papal. E é claro, como afirma Lucas Banzoli sobre  "ser característico dos sistemas totalitários colocarem a culpa em suas vítimas pela sua própria destruição (veja aqui)", a propaganda de demonização contra os cátaros precisa de mentes acríticas e desfuncionais o suficiente para lhe dar crédito pois: "Não bastou terem exterminado os cátaros até o último homem, ainda precisam demonizá-los até hoje".


Referência Bibliográfica constante no texto:




Att: Elisson Freire




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