Maria corredentora? Papa Francisco responde!

Maria corredentora

Maria corredentora? Uma primitiva introdução

Embora o Novo Testamento e os escritos dos Pais da Igreja não ofereçam uma mariologia sistemática, a figura de Maria se tornou tema em algumas controvérsias teológicas a respeito de Cristo. Valentin se baseando na heresia gnóstica afirmava que Cristo não havia nascido por meio dela. Os judeus para negar a conceição milagrosa de Jesus pelo Espírito Santo, afirmavam como aponta ORÍGENES em Contra Celso, p. 73, que Maria foi expulsa por José por ter sido culpada de adultério com o soldado chamado Pantera. O herege Marcião além de mutilar o Evangelho de Lucas para eliminar tudo o que se refere à geração do Senhor e seu nascimento de Maria, rejeitava que Cristo tivesse alma humana ou um corpo físico. Apeles, seu discípulo dizia ser escândalo que Cristo tenha nascido de Maria.

A reação cristã dos primeiros três séculos contra tais heresias, calúnias e absurdas especulações que miravam a ortodoxia cristológica sobre a Pessoa de Cristo, foi categórica: O evento salvífico de Cristo se inicia na real maternidade da Virgem Maria e que Deus se fez homem por meio dela. O resultado disto, obviamente, nos trouxe salvação e vida.

Séculos e séculos se passaram e as ideias que antes não tinham qualquer interesse de atribuir a Maria atributos exagerados, mas enfatizar doutrinas centrais acerca de Cristo, enxergam nessas abordagens de uma primitiva mariologia razões para a crença em conceitos de corredenção como mais uma das atribuições e títulos de Maria. Apesar de tal conceito ser evidentemente uma falácia causal (do nível de raciocínio que conclui que o sol nasce quando o galo canta) e um raciocínio circular, tal ideia é tomada a partir de textos como o de Irineu por exemplo, quando disse:
"sic et Maria habens prædestinatum virum, et tamen virgo, obediens, et sibi, et universo generi humano causa facta est salutis."
Tradução: "também Maria, tinha sido prometida a um homem, e no entanto virgem, obedeceu, e para si e a todo gênero humano tornou-se causa de salvação."
Não seria exagero inferir daí que o argumento de Irineu trata-se do contraste que faz entre Eva e Maria, onde a primeira em ato de desobediência, trouxe morte, a segunda em ato de obediência trouxe salvação. Exagero e do mais puro non sequitur será afirmar que os meios por quais os efeitos nos chegam, são de fato a causa, inda mais quando tais meios são sequências da causa. A causa em si mesma move os meios para produzir o efeito. Podemos apenas concluir que para atingir o efeito, a consequência de ações movidas pela causa colabora para que os meios, contribuam para atingir o efeito. Na classe dos agentes que foram meios usados para produzir os efeitos, Maria colabora assim como a obstinação judaica colaborou para salvação (Rm 11:11), mas ninguém irá sugerir que os judeus são corredentores. Aliás, não fosse a obediência de Abraão, ou da própria mãe de Maria, como esta por sua vez seria alvo de tamanha especulação? Abraão e os pais de Maria sem os quais ela não existiria, também serão elevados ao status de corredentores?

A mariologia patrística dos primeiros séculos em nada quis acrescentar, diminuir ou ofuscar a essência soteriológica que sempre foi cristocêntrica. Já a moderna mariologia do catolicismo romano tem custado a manter essa tradição e mais parece se importar com o sentimento piedoso porém exagerado e por vezes absurdo e herético que vem das massas de fiéis. Que se entende por corredentora? Não é a que colabora e contribui, coopera com a Salvação Redentora? Até onde se pode concluir o significado da obediência de Maria ser causa de salvação?

Uma observação pertinente

Aqui vou me abster de comentários críticos ou favoráveis acerca do termo corredentora ser correto ou não. E quem sou eu para opinar sobre o que é necessário ou não no catolicismo romano inda mais sendo um protestante? Ora, onde não tenho necessidade ou qualificações para opinar, como um católico diria, por outro lado não faltam qualificações a personalidades como Pio XII, por exemplo e os Pontífices que desde sua época não mencionam o termo corredentora precisamente para não causar mal-entendidos com os protestantes. O mariologista sistemático Padre Stefano De Fiores, membro da Pontifícia Academia Mariana Internacional, há uns 20 anos afirmou isso e ainda acrescenta que do ponto de vista conciliar e ecumênico, certamente não é oportuno proclamar este dogma, pelo menos não até que seu significado seja esclarecido. Isso porque:
"os irmãos separados, protestantes e ortodoxos, nos censuram por não os termos consultado a respeito dos últimos dogmas sobre Maria. É por isso que acho que um dogma desse tipo deveria incluir a participação deles. Avancemos primeiro em direção à união ou a uma certa convergência entre os cristãos; examinaremos então se é pertinente proclamar Maria Corredentora."

Papa Francisco e a corredenção


De lá pra cá quase duas décadas se passaram e o movimento "piedoso" que buscava dar o título de "corredentora" a Maria, sofreu mais um revés agora em 2021 vindo de sua maior autoridade, o papa Francisco, que opinou acerca do debate sobre se Maria é uma corredentora (link para o site do Vaticano):
Cristo é o Mediador, Cristo é a ponte que cruzamos para nos voltar para o Pai (ver Catecismo da Igreja Católica, 2674). Ele é o único Redentor: não há corredentores com Cristo. Ele é o único. Ele é o Mediador por excelência. Ele é o Mediador. Cada oração que elevamos a Deus é por meio de Cristo, com Cristo e em Cristo e se cumpre graças à sua intercessão. O Espírito Santo estende a mediação de Cristo em todos os tempos e em todos os lugares: não há outro nome pelo qual possamos ser salvos: Jesus Cristo, o único Mediador entre Deus e a humanidade (ver Atos 4:12).
Depois de várias outras observações, Francisco continuou:
Nossa Senhora que, como Mãe a quem Jesus nos confiou, envolve todos nós; mas como Mãe, não como deusa, não como corredentora: como Mãe. É verdade que a piedade cristã sempre lhe atribui títulos bonitos, como um filho à mãe: quantas palavras bonitas um filho dirige à sua mãe, a quem ama! Mas tenhamos cuidado: as belas palavras que a Igreja e os Santos dirigem a Maria em nada diminuem a singularidade redentora de Cristo. Ele é o único Redentor. São expressões de amor, como de um filho à mãe, às vezes exageradas. Contudo, como sabemos, o amor leva-nos sempre a fazer coisas exageradas, mas com amor.
E então ele conclui sobre seu mais importante papel e atributo:
As orações a Ela dirigidas não são vãs. Mulher do “sim”, que aceitou prontamente o convite do Anjo, responde também às nossas súplicas, ouve as nossas vozes, até aquelas que permanecem fechadas no coração, que não têm a força para sair mas que Deus conhece melhor do que nós mesmos. Ouve-as como Mãe. Como e mais do que todas as mães bondosas, Maria defende-nos nos perigos, preocupa-se connosco, até quando estamos ocupados com os nossos afazeres e perdemos o sentido do caminho, colocando em perigo não só a nossa saúde, mas a nossa salvação. Maria está presente reza por nós, reza por quem não ora. Reza connosco. Porquê? Porque Ela é a nossa Mãe!

Conclusão

Provavelmente os católicos dirão que (1) esta é apenas uma audiência geral, não um exercício de infalibilidade papal e (2) o que eles querem dizer com corredentora é de alguma forma consistente com as declarações de Francisco. Contudo deveriam considerar que não estamos mais naqueles tempos primitivos onde era necessário para expressar a cristologia correta, defender de igual maneira a maternidade da virgem Maria. Logo enfatizar atribuições de Maria nos planos salvificos a moda dogmática já não se faz necessário ou, pertinente como diria o já falecido Padre Stefano De Fiores.


Att: Elisson Freire

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