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Lutero disse que Cristo cometeu adultério?

Examinando a suposta citação de Lutero sobre Cristo ter cometido adultério.
Lutero chamou Cristo de adultero?

Lutero blasfemou contra Cristo, chamando-o de adultero?


Algumas citações apresentadas sem o devido contexto, de proveniência duvidosa e apontadas como heréticas blasfêmias, fazem referência a supostas frases de Lutero sendo a mais popular delas a de que Cristo cometeu adultério. Embora a historiografia acadêmica tanto católica quanto protestante tenha isentado o reformador de tais acusações e também refutado conclusões ignorantes, ainda assim, nas mídias sociais, pessoas incapazes de abordar a história com integridade ou sem o mínimo interesse de fazer uma pesquisa básica na web, continuam a dar crédito a tais citações e suas conclusões falaciosas.

Alegação Romanista

Por que os protestantes escondem que Lutero blasfemou contra Cristo, chamando-o de adúltero? Esta é uma pergunta que vi recentemente e é popularmente recorrente em perfis e páginas de apologética católica onde alegam que Lutero teria chamado Cristo de adultero e que "Os protestantes desconhecem os escritos de Lutero. Os poucos Pastores que conhecem esses textos buscam esconder essas tais frases". Tal especulação foi realizada em 2001 pelo site romanista Monfort (veja aqui), repostado em 2014 por uma fanpage católica (confira) até ser compartilhado pelo autor da pergunta:
Citação de Lutero

Eis a "comprovação" apresentada:
"Cristo Adúltero. Cristo cometeu adultério pela primeira vez com a mulher da fonte [do poço de Jacó] de que nos fala São João. Não se murmurava em torno dele: "Que fez, então, com ela?" Depois, com Madalena, depois, com a mulher adúltera, que ele absolveu tão levianamente. Assim, Cristo, tão piedoso, também teve que fornicar, antes de morrer."
Lutero, Tischredden, Table Talk, Weimar, Vol. II, p. 107, apud Franz Funck Brentano, Martinho Lutero, Ed Vecchi Rio de Janeiro 1956, p. 15.

Indagações como esta estão longe de servir como desafio ou algo que atinja a credibilidade de Lutero ou do protestantismo. Na verdade se serve de alguma coisa, é unicamente para demonstrar a incompetência, desonestidade e ignorância de uma apologética católica representada por sujeitos acríticos e carentes de informação. Ao nos depararmos com citações como esta, fica evidente o uso de uma propaganda caluniosa de pura e generalizada desinformação que cabe a nós darmos um fim sem deixar de apresentarmos uma boa e definitiva refutação.

Refutação

A referência apontada como fonte é totalmente protestante. O historiador protestante Franz Funck Brentano em "Lutero" cita outra obra protestante: a Edição de Weimar das obras de Lutero. Esta por sua vez, no volume 2 de sua obra nos traz as famosas Tischredden conhecidas como The Table Talk em inglês ou, Conversas à Mesa em português. Trata-se de uma coleção de comentários de segunda mão escritos por amigos e alunos de Lutero, publicados após sua morte. São fragmentos de anotações de seus alunos sobre conversas tidas à mesa com ele no almoço ou no jantar. 

Portanto, além da citação não ser algo que Lutero tenha realmente escrito, quem a divulgou foram os próprios protestantes. Então, a alegação romanista de que protestantes escondem tais citações ou que a desconhecem, é um flagrante testemunho da mesquinhez apologética e ignorância de católicos afoitos por qualquer picuinha sensacionalista que lhes atraia alguma atenção de seu preguiçoso público intelectual. Para além disso, a citação está longe do contexto blasfemo e calunioso que os católicos desavisados apontam.

Contexto

O rabisco de segunda mão de onde consta tal citação foi anotado por apenas uma pessoa, entre 1551 e 1557 quando Lutero já havia morrido e já haviam se passado cerca de 20 anos depois de tal declaração ter sido feita entre 1531-1532. Além de conter anomalias textuais nas quais o que foi escrito originalmente é especulativo, levou cerca de 350 anos até ser publicado em 1888 com uma nota de rodapé incluindo a observação de que o texto não é claro e é uma leitura presumível. Ou seja, eles não tem o real contexto do porque Lutero teria dito aquilo.

No entanto, a evidência textual de toda a obra escrita de Lutero não sustenta a interpretação de um Cristo adultero na teologia de Lutero.  Existe farta documentação primária (e não gatafunhos de supostas citações) expondo a completa adesão de Lutero à divindade de Cristo, bem como a perfeita humanidade de Jesus e sua impecabilidade. No volume 54 dos Trabalhos de Lutero é sugerido que a citação pode ser harmonizada com o sermão de Lutero de 1536 no qual ele afirmou que "Cristo foi reprovado pelo mundo como glutão, beberrão e até mesmo um adúltero" (LW 54:154, nota 100). Então, se Lutero realmente acreditava que Jesus Cristo, o Filho de Deus, cometeu pecado, o ônus da prova histórica recai sobre aqueles que fazem a acusação e já adianto que não encontrarão nenhum sucesso com tais alegações.

O contexto mais provável e admitido para a citação trata-se de que Lutero, de forma hiperbólica e descontraída, estaria resumindo o argumento de outra pessoa. Ele estava fazendo uma conjectura com o fato das Escrituras registrarem os discípulos se escandalizando com Cristo conversando com uma mulher samaritana. Outra vez é dito que os fariseus se escandalizavam pois ele comia com prostitutas e cobradores de impostos, etc. Lutero está mostrando que até mesmo Cristo foi tido como adúltero, promíscuo e leviano.

Conclusão

As Tischreden (Conversas à Mesa) são compilações de frases que saíram da boca de Lutero, mas não de sua pena. É no mínimo temerário usar frases soltas de Lutero que foram anotadas por várias pessoas diferentes (muitas vezes às pressas) para fazer acusações sem levar em consideração as obras que o próprio Lutero escreveu e publicou. O Conversas à Mesa é uma coleção de comentários de Lutero escritos por estudantes e amigos de Lutero. Assim, não é oficialmente um escrito de Lutero e não serve de base para interpretar sua teologia. Até mesmo o historiador católico e anti-Lutero, Hartmann Grisar, apontou que:
É claro, não se deve ignorar que o Conversas à Mesa são efêmeros – 'filhos do momento'. Enquanto eles corretamente e vividamente representam as ideias do locutor, menos a calma reflexão que prevalesce no escrito das cartas e ainda mais dos livros, eles contém frequentes exageros e denunciam uma falta de moderação. Os flashes estilo relâmpago que eles emitem não são sempre verdadeiros. Os exageros momentâneos do locutor às vezes gera contradições que conflitam com outras conversas ou declarações literárias. Frequentemente declarações humorísticas são recebidas como declarações sérias. Humor e sátira de um tipo muito pungente fazem um grande papel nestas conversas.
Hartmann Grisar, Martin Luther: His Life and Work, Maryland: Newman Press, 1950, pág. 481. 
Quanto a veracidade da citação? Vejamos o que diz um historiador católico romano:
É completamente absurdo pensar que Lutero chamasse a Cristo de adúltero. Faz alusão aos murmúrios dos judeus contra Jesus. Se o texto não aparece claro, é porque Schlagenhaufen (um dos que anotaram as conversas à mesa com Lutero) descuidadamente omitiu algumas palavras explicativas, v.gr., «adulter coram mundo», que encontramos num lugar quase paralelo. Pregando sobre Madalena em 1536, dizia: «Et dicunt eum diabolum... Filius hominis est ein Seuffer, helt zu Buben und Huren... Iohannes coram mundo Seuffer und Huren» (WA 41, 647). O que disse, pois, Lutero foi que Cristo pareceu perante o mundo como adúltero, porque murmuraram dele ao vê-lo com a samaritana e outras pecadoras.”

Aos católicos romanos que ainda citam estas palavras contra Lutero (ou qualquer comentário obscuro do Conversas à Mesa de Lutero) recomenda-se a cautela e observação do erudito católico romano Thomas O'Meara:
...Católicos estão usando argumentos retóricos inexatos quando eles fazem o valor da teologia e reforma de Lutero depender da sua linguagem no Conversas à Mesa. Apelos retóricos à mente – mas isto apela através das emoções. Ela alcança a mente não através de um ato puramente intelectual, examinando o caso a fundo e logicamente, mas por saltos e amarras, guiado por emoções e vontades, faculdades que são incapazes de um julgamento calmo sobre o que é verdade.
Thomas O'Meara, Mary in Protestant and Catholic Theology, New York: Sheed and Ward, 1966, pág. 5.

Licenciado e Pós-graduado em História. Bacharelando em Teologia. Cristão de tradição batista, casado com Miriam Lisboa Freire e pai de 3 lindas filhas.

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